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"Bom amigo, em nome de Deus, evite Mexer no corpo que aqui repousa. Abençoado o homem que preservar estas pedras, Amaldiçoado aquele que mover meus ossos".
Inscrição no túmulo de Shakespeare em Stratford-on-Avon
Shakespeare é um nome tão mágico que é desculpável pararmos por um momento para prestar-lhe uma homenagem.
Na sua essência, ele é diferente de todos os outros poetas: nós o sentimos muito mais do que o compreendemos. E é mais seguro afirmar que somos possuídos por ele, não que o possuímos. Ele joga as sementes das coisas de forma tão hábil, com um ar tão descontraído, que não conseguimos discernir os seus rumos, não vemos conexão entre causa e efeito.
Cada incidente, cada situação, parece obra do acaso e mesmo assim constatamos que o todo é planejado. As personagens falam e agem em concordância com a natureza, em concordância com cada um de nós.
Tudo que é mostrado tem uma justa medida. Shakespeare é mestre absoluto de suas criações e submete os nossos intelectos e as nossas almas. Ele nos molda como quer e com tanta facilidade que não conseguimos medir a extensão do seu esforço.
Presenciamos essas personagens agindo, motivadas por suas paixões, interesses, hábitos e, no fim, somos levados a reconhecer que os seus sentimentos e ações, originadas por tais impulsos, conduzem a um desfecho que não poderia ser diferente.
Shakespeare, ao mesmo tempo, mistura e separa todas as coisas; tudo é complexo, tudo é simples. Uma personagem pode ser mostrada em mudança progressiva e os acontecimentos de anos podem estar contidos em uma hora.
Como um feiticeiro, ele prepara e espalha os seus encantos! A personagem muda, diante de nós, da pureza para a amargura, para o desespero, até chegar à ruína. Em tais ocasiões, algum estudioso mais ortodoxo talvez pudesse exigir desse corajoso praticante das artes proibidas que aceitasse os princípios dramáticos de Aristóteles. E talvez o próprio Aristóteles, renegando o tal estudioso, se curvasse diante de Shakespeare, reconhecendo a sua supremacia.
Shakespeare nunca imitou e sempre esteve longe do alcance de qualquer imitação. O bardo do Avon deixou-nos uma obra totalmente original, de uma profundidade imensurável, que é hoje considerada a maior fonte de sabedoria que a humanidade já produziu.
Muito pouco se sabe sobre a vida de Shakespeare, a maioria dos fatos extraída de documentos legais da época. Vários biógrafos desenvolveram teorias que acabaram caindo por terra, por falta de provas. O que quer que tenha sido sua vida, ela permanece envolta em mistério. Segue, abaixo, uma breve cronologia.
1564 - Nasce em Stratford-Upon-Avon, Inglaterra, William, filho mais velho de John Shakespeare – conselheiro municipal e posteriormente magistrado (prefeito) – e de Mary (née Arden). É batizado em 26 de Abril.
1582 - Casa-se com Anne Hathaway, oito anos mais velha, já grávida, em novembro.
1583 - Nasce Suzanna, sua primeira filha.
1585 - Nascem Judith e Hamnet, gêmeos.
1585-92 - Os chamados “anos perdidos”. Neste período, nada de definitivo se sabe sobre seu paradeiro ou carreira. Duas possibilidades plausíveis são a de ter sido professor em alguma cidadezinha do interior ou ator de uma companhia ligada a um membro da aristocracia. Surgem muitas lendas.
1593-94 - Publica os poemas Vênus e Adônis e A Violação de Lucrécia, e os dedica ao conde de Southampton.
1595 - Torna-se um dos principais membros da companhia de teatro “ The Lord Chamberlain’s Men”.
1596 - Morre o seu filho Hamnet.
1597 - Compra New Place, uma das maiores casas de Stratford, mas continua morando em Bishopsgate, Londres.
1599 - Muda-se para Southwark, Londres, próximo do teatro Globe, que sua companhia acabara de construir.
1602 - Compra terras e propriedades em Stratford.
1602-4 - Muda-se para Cripplegate, Londres, onde divide uma casa com um refugiado huguenote, Mountjoy, que confecciona perucas.
1603 - Sua companhia passa a se chamar “The King’s Men” e a ter apoio financeiro da coroa.
1608 - Nasce Elizabeth Hall, neta de Shakespeare.
1582 - Nesta época, sem data definida, Shakespeare volta a morar em Stratford.
1613 - “The King’s Men” compram o Teatro Gatehouse em Blackfriars. O Teatro Globe é totalmente destruído por um incêndio, durante uma apresentação de Henrique VIII, última peça escrita por Shakespeare. Muitos manuscritos de peças suas, nunca publicadas, se perdem no incêndio.
1616 - Sua filha Judith casa-se com um certo Thomas Quiney e, em função disso, ambos são excomungados.
1616 - Em 25 de março, Shakespeare altera seu testamento, presumivelmente, para dar mais segurança a Judith, em vista do caráter duvidoso de seu marido, acusado de má conduta com outra mulher antes do casamento. Seu testamento também revela grande ligação com seus amigos de Stratford e, acima de tudo, seu desejo de ajudar seus descendentes. Ironicamente, para a sua esposa ele deixa de herança “minha segunda melhor cama”.
1616 - Shakespeare morre em 23 de Abril.
1623 - John Heminge e Henry Condell, atores da companhia de Shakespeare, publicam o “First Folio”, contendo 36 das 38 peças de Shakespeare, muitas delas inéditas, preservando para sempre “a memória de um amigo tão digno”.
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